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A Invasão da Venezuela: O Precedente Perigoso e a Oportunidade para Rússia e China

Cientista Político Araré Carvalho analisa os impactos globais após a captura de Nicolás Maduro e a invasão dos EUA na Venezuela

Atualizado em 03/01/2026 às 18:01, por Prof. Dr. Araré Carvalho | Cientista Político.

Ilustração conceitual de cenário geopolítico com soldados, helicópteros militares no céu e um globo terrestre em destaque com a Venezuela marcada. Em primeiro plano, retratos de Donald Trump, Vladimir Putin, e Xi Jinping observam a cena, simbolizando a disputa de poder e os impactos globais da intervenção militar dos EUA na Venezuela.

Ilustração representa as tensões geopolíticas em torno da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e como o conflito pode redefinir o equilíbrio de poder global, abrindo espaço estratégico para Rússia e China em um cenário de erosão da ordem internacional baseada em regras. Imagem gerada com IA.

 

À primeira vista, a invasão militar dos EUA na Venezuela é um revés significativo para Rússia e China, que consideram o país um parceiro estratégico em sua esfera de influência no hemisfério ocidental. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que tal ato, embora prejudicial a curto prazo, ofereceria a Moscou e Pequim uma oportunidade geopolítica inestimável, acelerando a erosão da ordem internacional liderada pelo Ocidente.

A invasão americana na Venezuela, sem o amparo do Conselho de Segurança da ONU, causa danos à base moral e legal que os EUA utilizam para condenar a invasão da Ucrânia. A narrativa ocidental de um "mundo baseado em regras" está exposta como seletiva e hipócrita. A Rússia poderia, com grande eficácia, utilizar o argumento “mas e os EUA?” para neutralizar as críticas às suas ações na Ucrânia. A mensagem de Moscou seria simples: "Se os Estados Unidos podem violar a soberania de uma nação em sua zona de influência por razões de 'segurança nacional', nós temos o mesmo direito em nossa 'vizinhança próxima'". Isso não apenas legitimaria retroativamente a ação russa, mas também dificultaria a manutenção da unidade da OTAN e das sanções internacionais, pois muitos países não-alinhados veriam a condenação ocidental como um duplo padrão.

Já para Pequim, o impacto seria ainda mais profundo. A China considera Taiwan uma província rebelde e uma questão central na sua soberania. A intervenção americana na Venezuela cria um precedente perigoso que Pequim pode explorar. Se os EUA podem invadir um país para depor um governo "ilegítimo" e assegurar recursos, a China poderia invocar uma lógica semelhante para uma futura ação contra Taiwan.

A justificativa chinesa poderia ser moldada a partir da observação da sequência de ações e justificativas que os EUA usam na Venezuela e a adaptar para sua própria situação, disparando uma "operação especial" para "restaurar a ordem", "combater o separatismo" e "proteger a integridade territorial". Ao quebrar a norma mais sagrada da soberania, os EUA dariam a Pequim a cobertura política para argumentar que as regras internacionais só se aplicam quando convenientes para as potências ocidentais. Isso enfraqueceria qualquer tentativa futura dos EUA e de seus aliados de intervirem em defesa de Taiwan, pois a própria nação que lidera a defesa das regras as teria violado de forma espetacular.

Em última análise, a intervenção dos EUA na Venezuela é um presente estratégico para as suas principais adversárias. Embora, aparentemente tenham perdido um parceiro, a Rússia e a China ganham um argumento poderoso para promover um mundo multipolar onde a lei do mais forte prevalece sobre o direito internacional. O ato aceleraria a transição de uma ordem global baseada em normas para uma baseada puramente em esferas de influência e interesses econômicos — um ambiente no qual tanto Moscou quanto Pequim acreditam que podem competir e vencer. O que parece ser uma demonstração de força americana seria, na verdade, um ato de autossabotagem que minaria sua própria autoridade e a estrutura de segurança que construiu ao longo de sete décadas.