Entre a lealdade e a ambição: o dilema político de Tarcísio
Cientista Político Araré Carvalho reflete sobre os custos e limites da autonomia política no campo da direita brasileira.
Entre a Papuda e os holofotes do poder, a ilustração simboliza o impasse político vivido por Tarcísio de Freitas, dividido entre lealdade ao bolsonarismo e ambições próprias no cenário nacional. Arte para o artigo de opinião do cientista político Araré Carvalho.
“Se quiser saber quem controla você, basta observar a quem você não pode criticar.” A frase, atribuída a Voltaire, ajuda a jogar luz sobre o momento político vivido por Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Recentemente, Tarcísio cancelou a visita que faria ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na Papuda. Alegou compromissos de agenda. A justificativa é protocolar, mas o contexto revela algo mais profundo: o governador vive permanentemente sobre uma corda bamba política.
Não é segredo, como já disse Eduardo Bolsonaro, que poucos sabiam quem era Tarcísio antes de 2022. Sua eleição foi diretamente alavancada pelo capital político de Jair Bolsonaro. Esse dado é central para entender seus movimentos atuais. Romper com a base bolsonarista, especialmente em São Paulo, é um risco altíssimo. O histórico recente está aí para comprovar: Janaína Paschoal, Joice Hasselmann, Abraham e Arthur Weintraub, entre outros, romperam com Bolsonaro e pagaram caro nas urnas.
Ainda que Tarcísio esteja, pouco a pouco, construindo um capital político próprio, é difícil imaginar sua reeleição ao governo paulista sem o apoio de uma base bolsonarista que continua muito forte no estado. Por isso, ele se vê obrigado a suportar as intempéries, muitas vezes fratricidas, da família Bolsonaro.
O paradoxo é evidente. Embora tenha declarado apoio a Flávio Bolsonaro, Tarcísio frequentemente flerta, ainda que de forma indireta, com a possibilidade de uma candidatura presidencial. Ele sofre pressão de vários lados. Do “mercado”, que o enxerga como um nome mais viável eleitoralmente do que Flávio. De dentro de casa: recentemente, sua esposa publicou que o Brasil precisava de um CEO, e que esse nome seria o marido. Michelle Bolsonaro, por sua vez, também já sinalizou ver em Tarcísio um candidato mais competitivo, chegando a cogitar uma composição de chapa.
Essa tentativa simultânea de construir uma identidade própria e, ao mesmo tempo, manter-se como apoiador, muitas vezes constrangido, das pretensões familiares do ex-presidente parece estar cobrando um preço alto. O episódio do cancelamento da visita à Papuda ocorreu logo após Flávio Bolsonaro, de maneira deselegante, antecipar publicamente o teor da conversa que Jair Bolsonaro teria com o governador.
Segundo Flávio, Bolsonaro deixaria claro que o candidato é ele próprio, Flávio, e que Tarcísio deveria se concentrar em São Paulo, preparando o palanque. Ou seja, “colocaria Tarcísio em seu lugar”. O recado foi direto, público e desrespeitoso. Tarcísio é tratado como um eterno devedor político, alguém que não pode ter opiniões próprias nem agir com chancela pessoal.
Embora a coerção faça parte do jogo político, expô-la dessa forma é um erro estratégico. Esse tipo de instrumento deveria ser usado apenas em última instância, nunca como demonstração pública de força. Tarcísio dá sinais claros de cansaço por desempenhar, indefinidamente, o papel do aliado eternamente agradecido.
Do ponto de vista de Jair Bolsonaro, a estratégia é compreensível. Flávio seria, de fato, o “melhor” candidato possível dentro da família. Um está fora do país, os outros dois não têm idade mínima. Ao lançar Flávio, Bolsonaro mantém alguém “esquentando o banco”, preserva a hegemonia da família no campo da direita e evita que uma liderança alternativa, como Tarcísio se consolide nacionalmente.
O risco para Bolsonaro é óbvio: se Tarcísio disputar, fizer uma boa campanha, for bem votado e ganhar musculatura política, ele se credencia para a eleição seguinte, uma disputa que vai ocorrer sem a presença quase imbatível de Lula. Nesse cenário, a família Bolsonaro perderia o monopólio da direita. A lógica é semelhante à que levou Lula a lançar Haddad em 2018: manter o campo sob controle, mesmo com poucas chances reais de vitória.
Resta saber se Tarcísio conseguirá, ou não, sair da sombra do bolsonarismo. Isso dependerá menos das circunstâncias externas e mais de uma variável interna: se o cansaço falará mais alto do que a subserviência costumeira. Sua mais recente declaração ao afirmar que, após adiar um encontro com o ex-presidente, o governo de São Paulo prevê uma visita à “Papudinha” na próxima quinta-feira e que trabalhará por uma “direita unida” na eleição, indica que essa autonomia ainda deve tardar, se é que um dia virá.
A conferir.









